
O céu da cidade onde nascí, não esquecí Ficou gravado um teto que de tanta luz Ainda brilha e coroa a vida e o caminho Cheio de estrelas nos passos, que descalços Conduzem a estrada que me leva de volta, Até aqui
Com o rosto quase fora da janela do carro, o vento fresco inunda tudo! A saudade, a alegria e a ansiedade na estrada reta, imensa e coberta por um abrangente céu que tudo veste. Estamos chegando na minha cidade.
O céu é poderoso iluminado por luzes quentes e violáceas. A vista se abre e somos envolvidos por uma abóboda celeste que guarda todos os nossos segredos e mistérios.
A terra ali é chamada formação Marília – tem de 65,5 a 70 milhões de anos.
O Planalto Paulista é um relevo com escarpas abruptas de até 100 metros, profundas. É como um tabuleiro elevado com cânions rasgando a terra. Quando crianças, chamávamos de buracão aquele lugar de profundidade assustadora e de grande curiosidade onde nos aventurávamos descendo com arrojado despudor, de quem desconhece o perigo, enfrentando os obstáculos, saltando entre as fendas.
Houve um dia, lá embaixo, ouvimos um trovão e uma tempestade despencou com violência e fúria. Vimos o barranco transbordar com pedras, terra, água abundante, vermelha e com estrondo cair sobre nós. Resolvemos subir de volta e foi um atentado ao corpo que se agarrava nas paredes de barro, escorregadias e perigosas. Nunca me esqueci desse dia. Uma das meninas empacou numa fenda, que era necessário saltar e começou a chorar… Zeca, meu irmão herói lançou um tênis com o cadarço estendido e pediu para ela segurar e pular. Imagine a fragilidade! E não é que deu certo? A menina acreditou e pulou.
Mas é o ceú de Marília que me faz contar, de sua beleza, magnânimo e esplêndido!
Nossa casa ficava num apartamento do edifício Galeria Santa Luzia, no terceiro andar. E minha mãe costumava nos reunir na sacada para o espetáculo do “por do sol!” Deslumbrante e original todos os dias. O céu se apresentava com trezentos e sessenta graus, imensamente aberto e iluminado sobre a cidade.
Na chácara dos meus avós, uma varanda gigante com escadaria em toda a abertura, também nos oferecia momentos de epifania e esplendor!
As noites brilhavam como espelho. Para chegarmos até à chácara, a estrada era cortada por uma linha de trem que nas noites de lua, os reflexos da luz faziam os trilhos acenderem luzes prateadas, lisas e molhadas.
E deitados na grama, o céu repleto de estrelas, o sonho nos visitava e era como uma viagem subindo em rampa diretamente aquele céu.
Tio Ramiz, professor de astronomia e grande conhecedor de muitos assuntos costumava levar para a chácara um telescópio. As noites nos fazia olhar pela lente para observar o céu e nos ensinava sobre as três Marias, o Cruzeiro do Sul, Vênus, a diferença entre o brilho das estrelas e a magia.
E desde esses dias o céu dessa cidade nunca mais deixou de acompanhar as nossas vidas.